Um pequeno calafrio percorreu sua espinha enquanto a garota falava. O tom doce lhe arranhava os ouvidos, e as frases que ouvia pareciam uma perfeita melodia, mas suas ultimas notas ecoavam de maneira errada, reproduziam um som desesperador.
Achei que todos precisavam de um motivo para pelo menos uma coisa. Sua própria voz se repetia em sua mente. Queria que ela pudesse responder sua dúvida - E talvez ela fosse capaz -, mas tanto tempo demorou para que a frase o liberasse de sua auto-hipnose que quando viu já era tarde demais; a garota já estava na sua frente, lhe fazendo mais perguntas.
- Isso é simples. Um rapaz tão inteligente como eu, - Ele estufou o peito e ergueu as duas mãos a altura do pescoço, como alguém que faz um discurso ou simplesmente se vangloria - É inteligente porque faz perguntas. Porque é um pouco curioso demais.
Olhava-a novamente por cima, o tom de zombaria era evidente. Pôs a mão direita no topo da cabeça da garota, como se fosse um adulto a afagar uma criança que voltava cansada da rua.
Sua mão esquerda parecia ser a única fora desse padrão de graça; estava completamente enrijecida dentro do bolso da calça negra do jovem, com os músculos do respectivo braço prontos para tomar qualquer que fosse a atitude necessária caso algo acontecesse. Não confiava em mais ninguém.
- Eu só queria saber que conseguiu continuar viva até então.
Suas próprias palavras lhe foram desagradáveis de ouvir. Sem perceber, fechou os olhos por um instante e conseguiu imaginar os dois, um pouco mais novos, talvez assim que se conheceram.
As coisas eram mais simples então, a ignorância era a maior das bençãos.
Entretanto, o pior dos pecados para alguém tão curioso.
E nada agora seria mais tão simples, não confiava em mais ninguém... Nunca mais.
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