domingo, 8 de agosto de 2010

Um pequeno calafrio percorreu sua espinha enquanto a garota falava. O tom doce lhe arranhava os ouvidos, e as frases que ouvia pareciam uma perfeita melodia, mas suas ultimas notas ecoavam de maneira errada, reproduziam um som desesperador.


Achei que todos precisavam de um motivo para pelo menos uma coisa.
Sua própria voz se repetia em sua mente. Queria que ela pudesse responder sua dúvida - E talvez ela fosse capaz -, mas tanto tempo demorou para que a frase o liberasse de sua auto-hipnose que quando viu já era tarde demais; a garota já estava na sua frente, lhe fazendo mais perguntas.

- Isso é simples. Um rapaz tão inteligente como eu, - Ele estufou o peito e ergueu as duas mãos a altura do pescoço, como alguém que faz um discurso ou simplesmente se vangloria - É inteligente porque faz perguntas. Porque é um pouco curioso demais.

Olhava-a novamente por cima, o tom de zombaria era evidente. Pôs a mão direita no topo da cabeça da garota, como se fosse um adulto a afagar uma criança que voltava cansada da rua.
Sua mão esquerda parecia ser a única fora desse padrão de graça; estava completamente enrijecida dentro do bolso da calça negra do jovem, com os músculos do respectivo braço prontos para tomar qualquer que fosse a atitude necessária caso algo acontecesse. Não confiava em mais ninguém.

- Eu só queria saber que conseguiu continuar viva até então.

Suas próprias palavras lhe foram desagradáveis de ouvir. Sem perceber, fechou os olhos por um instante e conseguiu imaginar os dois, um pouco mais novos, talvez assim que se conheceram.
As coisas eram mais simples então, a ignorância era a maior das bençãos.
Entretanto, o pior dos pecados para alguém tão curioso.

E nada agora seria mais tão simples, não confiava em mais ninguém... Nunca mais.

Motivos

Licxarpis pareceu não gostar de não ter uma resposta, o que a fez cruzar os braços novamente, bufando antes de ele prosseguir com as palavras.
Era impossível não notar o modo como ele se encrespava e parecia controlar as palavras, como se elas de algum modo pudessem fazê-la pensar.
Ainx querendo crescer-se para cima dela teve somente uma reação na garota: um sorriso.
Um sorriso fino e divertido, onde ela saboreava as palavras dele como vinho tinto.

- E por que eu deveria ter algum motivo? - sua voz se fez doce e o olhar insistiu em fitá-lo.

Era como se aquilo de fato não a incomodasse, e até divertido ver as pessoas correndo atrás de alguma coisa. No geral, sabia que estava ali somente para observar, e assim ia levando sua quase existência.
Talvez houvesse algo a mais... Mas... Quem sabia?

- Me impressiona que você, um rapaz tão inteligente, ainda pergunte esse tipo de coisa para mim - se pronunciou novamente, o sorriso já não estava mais em seus lábios e o tom de voz não era exageradamente doce. Parecia decepcionada que ele tivesse feito aquela pergunta, como se esperasse mais dele.
Deu de ombros e descruzou os braços, começando a andar lentamente em direção a ele, ficando frente a frente agora.

- Está "um pouco curioso demais" sobre o quê? - insistiu na pergunta. O motivo deveria vir logo.

sábado, 7 de agosto de 2010

O garoto fechou a cara por alguns instantes, erguendo o punho na altura do peito.
Não esperava ser recebido de forma agradável, obviamente, mas algo nas palavras dela o agitavam...
Não poderia ficar irritado, mas aquilo o atiçava, dava-lhe um desejo de ensinar boas maneiras para a garota de forma em que ela nunca mais se esquecesse de como ser uma anfitriã (embora não acreditasse muito que ela gostaria de ser uma).

Mas por que? No final das contas, ela só falava a verdade, aquele não era um lugar para ele, e não podia simplesmente se perder enquanto andava e chegasse até ali sem querer.

- Para as pessoas que vem aqui, normal não é exatamente o mais comum.

Relaxou os ombros e descansou os braços paralelos a seu corpo. Ficar irritado não o levaria a nada. Da última vez que "ele" esteve ali, tinha um motivo para estar, estava procurando algo, que no final das contas não conseguiu alcançar.
Agora ele talvez estivesse procurando o motivo para estar ali.

- Eu já respondi isso. Não tenho motivos, apenas devo ser um pouco curioso demais.

Voltou mais uma vez a encarar a garota, seus olhos não conseguiam achar um ponto fixo.
Agora, entretanto, continham um pouco mais de significado. A olhava por cima, a desafiava, queria ver se o chamaria de mentiroso.

- Se qualquer jeito, talvez eu ache logo um motivo. E você, ainda possui algo que te motive a seguir em frente?

Ele costumava não a entender. Dentro os Nobodies, até mesmo ele parecia ter um motivo para tentar achar algo que lhe falte, uma última peça do quebra-cabeça, embora esse peça não costumava ser tão obvia como era de se esperar.
Mas, para ele, ela não parecia ter algo assim.

Familiaridade?

Não pode deixar de reparar que a roupa dele estava diferente do costumeiro, e na verdade isso não importava para ela.
Licxarpis, no geral, nunca tratou e nem pretendia tratá-lo como uma criança, até por que, agora ele era mais alto que ela, mesmo assim tratava-o de igual para igual.
Mesmo estando bem desbocada ultimamente.

- Na verdade, precisa. - ela disse, pendendo a cabeça quase infantilmente para o lado enquanto continuava a encará-lo, mesmo ele tendo desviado o olhar - E você sabe que as pessoas não vem normalmente aqui.

A convicção ao falar foi imensa, e a paisagem ali não mudou nada além do farfalhar das folhas das árvores e o sopro do vento gelado.
Ela encolheu os ombros e respirou fundo ao escutar a afirmação dele, que lhe pareceu estranhamente familiar.
Se ele estava certo...
A Nobody não sabia dizer, aquilo realmente lhe pareceu familiar, mas não soube identificar. Motivo pelo qual ignorou a pergunta dele, usando um tom mais incisivo ao falar.

- Então torno a te perguntar. O que veio fazer aqui, Ainx?
Como se acabasse de receber uma ordem, o jovem se virou no exato instante em ouviu as últimas palavras.

- Me perdoe, mas você apenas não me deu tempo para que eu deixasse de dar as costas. Eu iria faze-lo em um instante ou outro, naturalmente.

A figura do garoto de frente tinha algo diferente, algo que talvez só estivesse errado.
Se sua capa vista de costas passasse uma imagem de algo velho e desgasto, a parte da frente demonstrava a talvez pouca vaidade e orgulho que ele tinha por tal traje que repousava em seu ombro. Não contava com nenhum dos numerosos cortes, não possuía nenhum amassado ou sujeira que fosse.
Mas isso era apenas uma roupa, não era algo realmente muito importante.

Seus olhos atravessaram os da garota, como se ele tentasse ler sua mente. Antes a pequena criança que não conseguia encarar ninguém diretamente, agora talvez o fizesse, com olhos que guardavam talvez um pouco de ódio e receio que o tempo reserva para qualquer um, embora ele não os pudesse sentir realmente.

- Eu não preciso de um motivo para querer saber das coisas, preciso? De todas as pessoas que você conhece, você realmente acha que eu preciso de um motivo?

Talvez perseguido por alguma sombra do passado, o Nobody não se conteve ao desviar o olhar, fingindo estar interessado na paisagem local.

- Algumas coisas não mudam - Ele deu uma pequena pausa, com a respiração lenta transformou a afirmação em pergunta - Estou certo?

Educação

Como de costume, ele disse.
Como de costume... Ele deu uma "passadinha" em seu território para ver se estava tudo bem?
A garota levantou uma de suas sobrancelhas perfeitamente delineadas, os braços ainda cruzados enquanto permanecia parada, olhando o ruivo que estava a sua frente, provavelmente se perguntando quantas vezes ele estivera ali desde... Ahm... Bem, desde sempre.

- Pra que você quer saber? - ela perguntou num tom normal de voz, apesar de ligeiramente frio.

Se lembrava vagamente, apenas vagamente, de ter se encontrado com Ainx recentemente. Bem... Ainx-não-Ainx ou o que quer que ele fosse, com certeza era mais cara de pau e se expressava melhor do que o ruivo que estava de costas para ela.
Talvez este fosse mesmo o Nobody. Isso explicava a falha na comunicação.
Mesmo assim, ela só tinha uma ideia vaga.

- E além do mais, também não é educado dar as costas para uma pessoa, então não reclame se lhe pareço rude. - ela disse, agora com certeza mais ácida.

Ela claramente não parecia em nada com aquela garotinha que era quando o conheceu. Respirou fundo e descruzou os braços, os olhos ainda fixos nas costas dele.
O que ele fazia ali, a garota ainda não sabia, pois achou que nunca mais o veria. Achou que não veria nenhum deles, Nobodies - e quando via, eram novatos. Todos de passagem, como as estações.