quinta-feira, 22 de julho de 2010

O Nobody já podia ter se levantado fazia algum tempo.
Podia ter se levantado quando a sentiu por perto.
Ou quando escutou seus passos.
Até mesmo assim que ela soltou a primeira palavra.

Mas resolveu esperar até a última, até ter a certeza de que ela estava mesmo ali, de que ele não estava sozinho...
Infelizmente...

Por mais que estivesse desapontado com sua falta de sorte - Ou talvez tivesse sido esperançoso demais os achar que encontraria o lugar vazio -, não conseguiu conter um sorriso bobo, singelo e ligeiro, que apareceu no canto de sua boca enquanto levantava, sem motivo ou explicação. Devem ser apenas algumas memórias antigas, refletiu.

- Não seja rude. Sou apenas alguém de passagem por aqui...

Apertou os olhos e fitou o lago. A água banhada pela luz da lua era um espelho natural, que deixava tudo mais atraente, tudo mais inalcançável. Tão inutilmente desejável.
De qualquer forma, mesmo para alguém sem coração, a água ainda era um espelho. O garoto poderia observar tudo o que acontecia diretamente as suas costas, sem ter que virar para aonde não queria.

Todo o resto, tudo o que eu não consigo ver refletido, não poderá me ferir. Se algo de tão longe ainda consiga me atingir, eu não conseguiria fugir de qualquer forma.

- Eu apenas vim checar se tudo está no lugar, como o de costume.

Seu punho estava cerrado e seus músculos prontos. Talvez algo estivesse fora do lugar, e ele não gostaria de saber isso quando já fosse tarde demais.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Boas vindas

Fazia algum tempo agora, não fazia?
Sim, algum tempo. Tanto tempo que talvez algumas coisas tivessem mudado.
O lugar era agradável - bonito não, a garota não achava nada bonito, tinha perdido esse dom junto com um pouco de sua paciência e inibição.
Era uma floresta grande, cheia de árvores e mato e silêncio, era noite e não chovia.

- Está bom desse jeito...

Refletiu, enquanto jogava duas folhas que havia acabado de arrancar de um galho no chão.
Apesar de o lugar existir há algum tempo, aparentemente não havia mudado tanto.
A garota também não parecia ter mudado muito: sua capa continuava intacta, talvez ela tivesse trocado-a em algum ponto de sua história, calçava as botas e vestia as luvas como se fossem uniforme, mas lhe protegiam.
Ao contrário de antigamente, entretanto, seus cabelos estavam longos e continuavam naquele esquema de "negro como a noite e vermelho como o sangue", além de que sua pele parecia mais pálida e os olhos ligeiramente mais azuis.

Licxarpis estava sentada em um dos galhos de uma das muitas árvores, sentia a brisa fria e úmida proporcionada em partes pelo lago que havia ali. Arqueou o cenho, curvando o corpo para frente ainda em cima do tronco, apoiada nos joelhos e nas mãos, quase como uma felina.
Que estranho... Muito estranho.
Respirou fundo e se levantou, pulando de lá de cima para ir ao chão, a ponta de seus pés e alguns dedos de sua mão direita recebendo o impacto do corpo, quando se levantou e normalmente - quase calmamente - tornou a andar até onde estava aquele sujeito agachado em frente ao seu lago. Na sua floresta.
Enquanto o observava pensava que aqueles cabelos vermelhos de ferrugem lhe eram familiares.
Mas de costas era um pouco difícil saber, e ela tinha uma leve ideia, mas não chegou a concretizá-la. Havia parado de andar e cruzou os braços.

- O que você quer aqui? - a voz soou calma, apesar de ligeiramente fria. Com certeza audível, imperiosa.

Não importava se era conhecido ou não, qualquer um que chegasse assim de fininho não seria bem recebido por ela.
O silêncio era intenso e parecia que não havia mais ninguém por lá.
Realmente as aparências não diziam nada.
Quem sabe o que havia mudado?

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Um punhado de escuridão invadia o gramado daquele mundo de pouca luz. Antes que qualquer um, por sorte ou azar, pudesse perceber que do pequeno casulo - Mas não tão pequeno como nos seus primeiros segundos - surgisse um Nobody. O Nobody se lembrava bem daquele lugar, mas não sabia se aquele lugar iria reconhecê-lo.

Tinha agora algo perto dos cento e setenta e cinco centímetros, algo desanimador para os tantos anos que crescera, mas ainda tinha caminho pela frente. Seu sobretudo estava completamente estragado e rasgado. Além dos diversos cortes, perdeu seu zíper, obrigando que o Nobody o usasse sempre aberto. Estava também ficando pequeno demais, então ele lhe arrancou as mangas e rasgou os ombros para que não o apertasse. Juntando com o capuz que também havia arrancado fazia certo tempo, seu sobretudo agora não passava de um jaleco, que reforçava sua aparência de pesquisador. O jaleco ficava folgadamente caido por cima de uma camisa bordo e uma calça preta, como o Nobody costumava usar sempre. Além disso, o que nunca mudava era seu ar de sono, os cabelos vermelhos cor de madeira apodrecida e os olhos azuis de vidro. As únicas coisas que ele tinha de novo, mas que já usava, era o par de botas e luvas pretas, junto com o cachecol da mesma cor, que dava duas voltas largas em seu pescoço e caia pela costas até os joelhos.

Como era de sua preferência, surgiu um pouco distante do lugar aonde queria ir, e o resto do caminho seguiu a pé. Evitava encontros surpresas e o relaxava antes de qualquer coisa. Além do mais, aquele lugar era nostálgico, do tipo de nostalgia em que ele quase nunca podia se dar o luxo de ter.

- Espero conseguir logo o que quero, antes que quebre qualquer coisa...

Se ajoelhou no beirada do lago e molhou a ponta da luva com uma gota solitária. Ao seu lado, ele conseguia ver a casa que procurava. Por cautela chata que obteve em experiências que não lhe foram agradáveis, o Nobody esperaria por um tempo no lago. Se nada o atacasse, teria uma chance de estar sozinho ali. Seria invadir a casa, buscar na floresta e sair o mais rápido possível.

"Antes que eu quebre qualquer coisa."

- Mas as coisas não teriam graça se fossem tão fáceis, certo?

Murmurava aos ares dali. Alguma coisa o destino reservara para ele, como o de costume.